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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Desenho de 'Bebu" Sóbrio - Parte 3 (As Parcas do Destino)

 Cloto não consegue se entender com a matéria prima nova e acaba por emaranhar os fios. Pra piorar, de uns tempos pra cá o gerente só fez aumentar a porra da meta. Não ganha hora extra e, por ser perpétua, quase mandou o chefe enfiar o tal do "banco de horas" no meio da eternidade dele.

 Átropos, seca como sempre, era a odiada da salinha. O esquema dela e tesourar. As outras duas tem quase certeza de que foi ela que deixou um tratado sobre Fordismo sobre a mesa da diretoria. Anda dando uns pegas no Caronte.
 
Láchesis subiu no telhado da repartição e foi bolar um beque. O trabalho que se foda.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Na Matinê do Cinema Olympia

O artigo abaixo foi escrito por Miriam de Sales:

O cinema mais famoso de Salvador, relembrado na música de Gil, não foi do meu tempo.

Sei que “tinha pulgas nas gerais”,muito barulho, e, era freqüentado por pessoas de classes mais baixas e de má reputação. Gente pobre, pé-rapados, sem preconceito, nem belos trajes.

Olympia era o cinema maldito. Ficava na Baixa do Sapateiro,eu alcancei o que lhe sucedeu,o Cinema Aliança, mas, nunca o freqüentei, acostumada que era, aos cinemas do Centro.

As matinês do Olympia começavam ás 12h30 ou 13h00, devido á quantidade de fitas que eram exibidas. À porta ficavam os toscos cartazes pintados á mão, anunciando o número de partes da película: o jornal, uma parte; a comedia, duas partes, curtas; depois, dois ou três filmes de cinco a seis partes e, por fim as séries de dois episódios. Tom Mix, Buck Jones, reinavam soberanos, faziam coisas indescritíveis; eram os reis do “ZÉ BRUNO”, sinônimo da mentira.

Quem sabe lá a origem da expressão? Só sei que, a cada culhuda (mentira difícil de engolir) a galera maltrapilha gritava: "Zé Bruno! Zé Bruno...!" A barulheira que vinha de dentro chegava a incomodar quem passava lá fora, era uma gritaria infernal. A especialidade da casa era filmes de faroeste e mistério; todos torciam,aos berros e pulos, pela mocinha ou pelo galã. Os velhos bem velhos que conheci recordavam as emoções sentidas nas matinês, onde Douglas Fairbanks Jr., Eddie Polo, Marie Walcamp, Harry Carey e a inesquecível “femme fatale””,Theda Bara e a ingenua Mary Pickford, além da irreverente e sensual Mae West, reinavam absolutos, sob a gritalhada da meninada em transe. Os lugares eram disputados. Os homens se aboletavam na geral - Quero a geral! - que podia ser um poleiro no último andar das varandas batizadas de frisas, camarotes, balcões e galerias, quando o cinema virava teatro, o que acontecia sempre. A geral mais barata era atrás da tela(!)onde se via tudo pelo avesso.

Contam os antigos que, o Olympia tinha sessões picnic; quem freqüentava levava sua merenda, pois as sessões eram longas. Os serventes que faziam a limpeza encontravam papéis de “queimados(balas), cascas de laranjas, melancia, espinhas de peixe frito, pedaços de pão, vômitos de crianças e pinguços, capucos de milho, tabocas de sorvete, bagaços de cana e -pasmem - espartilhos e calcinhas de senhoras, naquele tempo, chamadas calçolas.

Voltando á Gil:”sustos,emboladas,espartilhos,gatilhos...

Tempo de gente feliz.

Os cinemas da Baixa do Sapateiro,hoje,ou se transformaram em cinemas pornô,freqüentados por homens de baixa classe,mocinhos ainda não inaugurados e velhotes aposentados ou em templos da Igreja Universal.Não sei qual dos dois destinos é o pior!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Parem os Projetores

"...Da força da grana que ergue e destroi coisas belas..." - Caetano Veloso



Meu nome é Fabrício Lima, nasci em Salvador mas meu título de eleitor como tudo mais em minha vida, agora é de São Paulo.

Quando cheguei aqui há três anos, coincidiu que minha primeira sexta-feira era dia de “Noitão” no Belas Artes. Ainda não tinha amigos cinéfilos, ainda não estava trabalhando e faltavam duas semanas para as aulas no Senac começarem. Pra falar a verdade não faziam quarenta minutos que eu havia acabado de descer em Congonhas. Comprei a entrada e minha primeira madrugada na polis foi acordado vendo Tim Burton e Lucía Puenzo.

E enquanto eu conhecia a cidade vieram outras sextas-feiras, com Dominique Abel, Rene Letzgus e Fernando Meirelles. Eles vinham aos pares, aos trios, aos montes. Delicados, deliciosos, repetitivos, infames, iluminados e insones. Uma vez por mês, um ménage a trois em uma sala repleta de voyeurs - porque, sozinho ou acompanhado, eramos só eu e eles – e o Belas, a velha cafetina.

Não foi esta manhã que fiquei a saber que o Belas cerraria as portas. Desde que o HSBC retirou seu patrocínio ao cinema e o prazo começou a correr sabia que era questão de tempo. O que me deixa puto é me perguntar repetidas vezes o que a administração pública (seja o estado ou o município) fez por aquela casa, com sessenta e oito anos de serviços prestados à cultura dessa cidade, pra evitar que ela se transforme em mais um maldito prédio de estacionamentos.

Kassab - por exemplo - quer tirar os artistas das ruas, os cinemas do centro, tombar as velhas casas da Brigadeiro Luís Antônio, encher as vias de carros e motos, mandar-nos todos a puta-que-pariu ou à Barueri e que se foda todo o resto. Fechem os bares da Augusta após a meia-noite, arranquem os letreiros suspensos da Liberdade, apaguem os grafites do Minhocão virem as bancas da Paulista de lado, higienizem, homogenizem, padronizem asfaltem!

Senhores, por favor. Foi-se o tempo em que se contabilizava votos por quilômetro de asfalto plantado. Isso deve ter sido aceitável nos anos setenta quando a seleção ainda tinha Pelé, Gerson, Jairzinho e Tostão.

Então deixem-me com meu cinema porque, ver futebol hoje em dia, é uma grande bosta.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Ser Ou Não Ser Engajado

"E até pra morrer, você tem que existir" - Otto




Por algum motivo sem uma explicação aparente um livro que está sempre na parte da frente da minha bolsa é uma pequena versão de “Do Contrato Social” de Jean-Jaques Rousseau. Comprei-o em um sebo ha pouco mais de dois anos, coloquei-o na bendita bolsa e, por falta de outro volume que ocupasse tão bem aquele compartimento, nunca pensei em tira-lo.
Não que seja minha leitura favorita, mas ainda é menos agressivo às minha convicções do que as publicações de Thomas Hobbes e John Locke sobre o assunto - A realação do indinvíduo, o estado e a sociedade. Por exemplo, enquanto o Hobbes acreditava que o homem em seu estado natural, livre e em igualdade com seu semalhante – e compartilhando de anseios e necessidades semelhantes (muitas vezes escassas) – tenderia a a conduzir o individuo ao comportamernto beligerante. Mas o próprio Hobbes assume que o conflito desponta como um elemento não bem-vindo na equação. Vem daí que o homem abriria mão da própria liberdade irrestrita e se institui à figura do Estado como mediador das necessidades entre os individuos.
Nasce o controle.
Não se engane pela frase inicial “O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se acorrentado”. O que gosto na redação de Rousseu é que, diferente dos seus antecessores, a argumentação de “Do Contrato Social” conduz o pensamento de que que o individuo é parte integrante e indispensável do Estado.
Nasce a Política.
Esse preceito mais do que justifica a mobilização popular nos processos de transformação da ordem social, seja durante a Revolução Francesa ou na invasão da reitoria da UFBA em 2001. E digo mais, uma revolução não significa própriamente enfrentar mosquetes ou cacetetes. Quando um único e solitário homem com um pedaço de cartolina fica por 4 horas no cruzamento da Paulista com a Augusta gritando palavras de ordem contra o Banco Safra ou quando na manhã seguinte a um ataque gratuito deflagrado por alguns jovens bem abastados do Itaim contra um rapaz homossexual, depontam algumas flores na fachada do Banco Safra, isso também é revolução.
Talvez a palavra “Revolução” tenha ganhado um peso superdimensionado em nossos livros de história a ponto de quase desabonar essas singelezas. Do valor do homem único que se reconhece como parte integrante e indispensável para o funcionamento apropriado do Estado e da ordem social. Me irrita profundamente o desprezo das pessoas que, se abstém de seu papel fundamental atribuido dentro do panorama traçado Rousseau, fazem pouco daqueles que o exercem e ainda têm a pachorra de queixarem-se dos caminhos que mundo toma.
No ultimo mês cansei-me de ouvir a fina flor da classe média paulistana execrar o eleitorado nordestino por votar massivamente na Dilma como sua representante. “O que sabem esses mortos de fome sobre política e economia?” Sabem que nos ultimos 4 anos enquanto a economia dos estados do do sul e do sudeste cresceram parcos 4,5% os estados daquela região registraram índices de crescimento econômico entre 8,5% e 9%. Reparem, não falei absolutamente nada sobre programas sociais de inclusão (já que afinal de contas, quem agora cospe os maribondos, não dá a mínima), falo de produção industrial, crescimento de participação no PIB e indicadores econômicos.
O que quero dizer é que independente de seu ponto de vista, abrace-o, justifique-o, argumente-o. Ouça aquele que é seu opositor, comprenda-o, debata e respeitei-o.
Inquiete-se! Mexa-se! Exista!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Caríssimo senhor candidato José Serra

Caríssimo senhor candidato José Serra

O senhor jamais terá meu voto.

O mínimo que esperava do segundo turno seria um confronto entre as convicções políticas do senhor e da candidata Dilma. Mas a menos de 3 dias do pleito definitivo eu me deparei com uma coleção interminável de razões para, em hipótese alguma, digitar o seu número na urna eletrônica.

Só pra começar, sei do descalabro que o Governo do estado de São Paulo - durante sua gestão - cometeu ao liberar verba para compra de espaço publicitário durante a campanha que promovia as obras de expansão do metrô em 2009. Soube de fonte segura que uma certa agência publicitária baiana - agencia essa conhecida pelo seu vínculo com caciques do PFL local - recebeu uma quantia sufuciente para cobrir os gastos com o filme nacional mais caro produzido até hoje ("Lula, o Filho do Brasil - 16,5 milhões de reais).

Quando se define um orçamento para o filme, inclui-se as fases de pré produção, produção e pós produção. Quando seu governo reverteu esse montante grosseiro, apenas para compra dos espaços de exibição - ou seja, excluindo da tal cifra a produção do material publicitário - a analogia que me veio à cabeça foi "como comprar um FIAT 147 ao preço de um Porta-Aviões". E o pior, nem sequer se tratava de uma campanha de alcance nacional.

Some essa aberração que não chegou aos meios de imprensa à sequencia de trapalhadas que o senhor, afoito por ganhar terreno nas pesquisas, acabou por cometer. O senhor se associou aos setores mais reacionários possíveis da sociedade brasileira. Criaturas dormentes desde os tempos em que João Goulart ainda caminhava pelos corredores do palácio do planalto.

Associou-se aos setores mais retrógrados da igreja católica (gente que hoje, mesmo a Santa Sé, não faz questão alguma de dar ouvidos), aos integralistas, aos ruralistas e à entidades que até hoje, só se ouvia falar dos livros de história. Sem falar aos "defensores da imprensa livre" - Alcunha essa que não cabe ao conglomerado editorial do senhor Roberto Civita, que outubro passado colocou no olho da rua um jovem jornalista, de uma de suas publicações, apenas por discordar veementemente de uma reportagem publicada pela revista Veja.

O senhor participou PESSOALMENTE de ações infelizes, como a distribuição de santinhos anti-Dilma (impressos esses que o senhor com certeza sabia que continham informações absurdas) ao lado do então candidato ao governo do Ceará, Tasso Jereissati, em uma basílica no interior daquele estado, durante uma missa com 30 mil pessoas. De tão absurdo, foram repreendidos pelo padre - que por pouco não perdeu a disputa pelo altar com o sr. Jereissati.

Como se não bastasse, envolveu o nome da ex-candidata Marina Silva de forma fraudulenta (termo escolhido pela própria) essa semana em uma prática que, se não fosse eu um dos atingidos, não teria acreditado. Sua coordenação de campanha teve a pachorra de criar uma conta de e-mail falso (marina@pv.gov.br) carregada de um conteúdo de conclamava os eleitores da Marina a somar forças com o senhor no pleito do próximo domingo. Mas graças ao Twitter e seu "Verified Account", assisti a verdadeira Marina passar-lhe um sabão online pela mentira descabida.

E é por isso que, agradecido, reassumo por meio deste desengonçado manifesto as minhas antigas posições de militância política e, desejo ao senhor toda má sorte deste mundo próximo domingo.

Passar Bem.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Desenho de 'Bebu' - parte dois (pessoas da minha vida)

"Se juntar todo mundo, não dá um são." (Oscar, Chefe, hippie, yuppie, yankee)

O pior é que eu publico SÓBRIO!


Pancinha, alcoolatra (diretor nas horas vagas)



Bianca, produtora (e vício com pernas)



Sidney, assistente de produção (Provando que menstruação é uma preocupação masculina)







Marcos, editor (O "amigo" número 1 dos diretores)






"Che", Editor (Uma caricatura de si mesmo)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

So Far Around The Bend

Numa madrugada dessas, Fabrício encontrou uma garrafa de ROSKOFF e um lapis carvão. Aí eles começaram a conversar.









quarta-feira, 7 de julho de 2010

Jonas Salva o Amor



Uma vez a cada 15 dias eu participo de trabalho voluntário com crianças de 6 a 11 anos na praça Emília Barbosa Lima, em Pinheiros. A idéia é bem simples e bacana - consiste em integrar crianças com situações econômicas diferentes em atividades comuns (O mundo é uma porcaria, mas você não tem obrigação de saber disso antes de entrar pro ginásio).


Mas nesse ano e meio eu reparei em outro aspecto comum entre essas crianças. Na verdade é sobre um traço bem inerente ao nosso tempo - A volatilidade dos laços dos relacionamentos. Pai e mãe não são mais um casal. Como explicar pra uma criança de 7 anos que eles ainda são "pai" e "mãe" ?


Aconteceu com duas crianças do núcleo que eu tomo conta, e desse exercício - E da babação de ovo pela obra de Maurice Sendak (Where the Wild Things Are, Os Sete Monstrinhos) - surgiu a idéia de um livro infantil chamado "Jonas Salva o Amor"


A minha oficina é a de desenho e pintura, e eu tenho uma teoria que a capacidade cognitiva de uma criança se expressando atravez de um desenho é infinitamente mais rica e completa que uma obra do Tolstói (tá lá o Alejandro Jodorowsky que não me deixa mentir).


É o velho "Entendeu ou quer que eu desenhe?"


Pode parecer uma desculpa cretina e pretensiosa pra voltar a ter o desenho como uma fonte de sustento mas, a medida em que os esboços vão saindo, eu vou ficando cada vez mais obcecado (e desesperado por um editor) pelo conceito do livro.



O primeiro esboço de Jonas. Feito com giz de cera.




Jonas tem 7 anos, uma irmã de 2 e um porquinho-da-índia. Ele também (acredita que) é um feiticeiro poderoso e viu no canal secreto da TV do seu quarto que o amor do coração de seus pais havia sumido. Apavorado com a ideia de perder os pais, Jonas lidera o trio em uma expedição através do mundo-invisível-que-nenhum-adulto-vê-mas-a-entrada-fica-debaixo-da-cama-nova-da-joana em busca do amor desaparecido. Até ele descobrir com o grande porcão da índia (mestre do seu porquinho) que esse amor não pode ser salvo. Mas o amor que ele temia perder fica escondido em outro canto do coração e não pode ser roubado.


A idéia é que o livro fique pronto até o fim do ano e pra isso conto com ajuda de dois grandes colaboradores o Ronei e a Rose ("Não somos parentes"). Não pretendo fazer como Spike Jonze e criar um blog pra mostrar os progressos do projeto. Ia ser forçar demais a barra, então não se preocupem com isso.


Mas se a partir de hoje eu começar a "aputar" mais na hora da cervejola com o galerê, vocês já sabem o que é.



Abracetes, Fabrício.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Nero

Subi a pé a Brigadeiro ouvindo apenas os estalos, mas sem menção de tornar a cabeça para contar os cacos pois sabia, que à boca da Paulista, já estaria sem casca. Então nú e flamejante segui até a Consolação, incinerando outros amantes, poupando apenas aqueles pedestres sozinhos e fulminando, de todo o restante, os carinhos. Para o mundo ver que um amor moribundo deixou uma cidade em chamas e algumas garrfas vazias.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Cryon 2B


Eu olho pra ele e lembro de uma futura piscina que nunca virou piscina de fato e da textura das cascas das árvores da rua do Timbó.


Antes dos prédios e das grades, quando eu sabia que era domingo ao ver um moleque sentado na calçada em frente à guarita gritando "A TARDEEEE!! A TARDEEEEEEE!!"


Nos dias da minha vida onde havia uma gaita anunciando o sorvete de latão, que começava um litígio pela atenção do soveteiro e seu sorvete de nata.



E eu também amava uma menina de cabelos pretos que era minha vizinha. E amava outra de cabelos louros que era minha colega na escolinha. No meio das bijuterias que minha tia vendia eu escolhi dois anéis, e dei um pra cada uma.


Não ganhei sequer um beijo, mas me dava por satisfeito porque, eu era mais homem que qualquer moleque da minha idade por aqueles lados da Pituba.



Foi quando o caminhão de mudança veio, cheio de vazio pra colocar os móveis, eu fiquei só, como nunca tinha ficado até aqueles meus dez anos...




Nunca mais desenho depois de beber.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Crise dos Trinta

Eu até pensei em fugir com algum pelotão de partida para Vladivostok, mas fiquei com medo de pegar em armas. Tem sempre algum exercito - ou dois, ou três - tentando tomar o Alaska. E como muitas coisas na minha vida, não que eu tenha feito por mal, apenas não fiz.

Das resoluções da aurora do ano eu fui me esquecendo e quando acordei já era amanhã. Não comecei absolutamente nada das coisas que me prometi e já finda o Janeiro. Ontem me peguei olhando as horas enquanto via o noticiário - sobre um país sumiu debaixo da terra e uma cidade sumiu debaixo d'água - e não fiz nada do que disse que faria a respeito de coisas assim no meu tempo de jogar WAR e calçar Kichutes.

Tempos atrás, antes de mandar minha mãe à merda com a cidade que eu deixei, eu fiz projeções equivocadas sobre o sucesso - construídas sobre variáveis inconstantes e nebulosas - e agora, aflitíssimo, olho pro mundo em terceira pessoa como quem assiste televisão enquanto caminha numa esteira de academia.

Me doem as pernas mas nem saí do lugar.

Dudu me falou sobre isso uma vez enquanto ele dirigia. De uma forma bem resumida, os trinta anos sufocam os sonhos e os sonhos são o predador do homem adulto. As minhas decisões se equilibram entre as metáforas - de dormir ou ficar acordado - e enquanto o tempo passa, acho que nem durmo, nem caminho.

Mas talvez seja apenas questão de trocar a marca dos meus tênis e do colchão.



segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Um acarajé, na moral (Parte 2)

*Dando continuidade ao post anterior escrito por Paulo Márcio



Eu acordei com um inexplicável gosto de dendê na boca.

De súbito a primeira coisa que fiz antes de apanhar os óculos foi tatear o gaveteiro atrás do telefone.

Rapaz, quero um acarajé - falei pro Paulo do outro lado da linha - acabei de acordar e quero um acarajé.

Subi a Rua dos Estudantes num passo obstinado só que, chegando na feirinha da Liberdade, me senti inconformado com aquela vontade descabida. Pensei enterrar o meu desejo dabaixo de qualquer outro azeite.

Procurei qualquer sinal de fritura por entre as banquinhas até pensar em giyoza.

Sabe giyoza? Aquelas trouxinhas de massa recheadas com carne de porco e especiarias, levemente cozidas e depois levemente fritas, servidas com um molhinho feito de shoyu e gengibre?

Não leva dendê.

Subi as escadas da Santa Cecília descompassado com o domingo, esfregando os dedos como se já estivessem sujos de dendê e pensando naquele papel de embrulhar as compras da feira - que na Bahia também é o guardanapo das iguarias.

Me juntei ao Paulo e o Chico se juntou a nós. E nós fomos até o acarajé.

Aquele domingo de sol lascando e aquela estranha felicidade em estar de pé esperando uma mesa com um copo de cerveja na mão, pensando nas milhões de possibilidades do domingo que nos restava.

As mesas daqui têm os nomes das praias de lá. E ainda dispostas solenemente na ordem correta - da Barra até Itapoã. Sentamos e pouco depois estavamos ao telefone explicando pro Gabriel como chegar até nós - Você tá na Angélica? Entre na Jaguaribe. Estamos em Piatã.

Comemos, bebemos, falamos de futebol, cinema, amores e dendê. Felizes em cheirar nossos dedos impregnados de azeite, rindo das figuras desajeitadas nas outras mesas brigando com o quitute e provocando outros expatriados por telefone.

Foi no caixa que fiquei a saber, era dia de Cosme e Damião.

Agora eu queria um doce.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Dúzia de quatorze (When I'm 64) **

Lá pela noite estávamos no Fuad e, apesar dos pesares, eu estava contente.

O pesar em questão foi aquela partidinha bizonha entre Bahia e Portuguesa - Um exercício de puro desrespeito ao desporto bretão indígno de qualquer aprofundamento - apenas citada aqui por nos ter reunido à mesa.

O cachecol tricolor não me era todo frustração, servia-me bem naquele friozinho e, bastando filar um cigarro do Meireles e um copo de cachaça -aquela que matou o guarda - minha garganta já estava ótima outra vez.

E aqueles expatriados já não mais falavam de futebol, apenas de casas, ofícios e amores. Havia uma certa nostalgia em reencontrar aqueles homens depois de anos e perceber no semblante do outro a passagem do tempo.

Não por que deixamos de ser quem éramos, apenas constatamos que nos saímos bem sendo, até certo ponto, os mesmos de sempre. Enquanto falávamos de sofá e compromisso, umas cervejas e uma dúzia de pastéis.

E depois de alguns instantes, quando a mocinha nos serviu os pastéis, já não tinha tantas aflições sobre a segunda-feira, nem mesmo sobre as questões maiores do meu coração, pois há quatorze pastéis na minha dúzia.
**Esse post foi publicado em 1 de junho deste mesmo ano. Eu infelizmente eu não consegui redigir nada tão rico em significância ou que fosse genuíno o bastante para marcar este 6 de agosto. Mas, meu querido amigo Paulo Márcio, você que era um dos homens à mesa naquele fim de tarde sabe muito bem que é em dias como hoje que esse contentamento se torna recorrente. Um feliz 30 anos,
Fabrício

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Os Jardins da Liberdade


Aqui no centro da cidade qualquer coisa mais colorida que a lataria dos ônibus me provoca um suspiro de contentamento. Não que aqui não more o belo. Foda é que aqui nem a beleza passa incolume pelos tons de cinza.

Mas bendito seja o mês de julho, seus políticos e suas serpentinas.

Gosto dos festejos, das comidas, dos taikos, dos kimonos e das lanternas de papel. Gosto de ser cumprimentado em japonês, de beber e de amarrar meus desejos no bambú.

Este é meu quinto Tanabata Matsuri, mas agora já não sei se eles realmente queimam os bambús com os pedidos para Kengyu-sama e Orihime-sama.

Este filho-da-puta do Kassab adora reinventar coisas.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Feeling Good

Meu tio Luís era tudo que minha mãe não queria que eu me tornasse. Bebia demais, fumava demais, trocava o dia pela noite e, acho que justamente por isso, ele exercia um facínio muito grande sobre a minha cabeça infante. Eu me lembro bem das quintas-feiras na casa da minha avó, do Baião-de-dois no fogão dos vinís do meu tio.

Enquanto meu pai era um rústico, um trabalhador braçal (ainda que bem remunerado), o tio Luís ouvia John Coltraine. E falava sobre coisas e pessoas que conheceu no Rio de Janeiro, dos contrabantistas de cigarro na Ribeira, do Vinícius, da Janis e do Jim.

Mas a apoteose da tarde era quando ele colocava o vinil de "I Put a Spell On You" da Nina Simone e cantava a plenos pulmões "Marriage is For Old Folks" pra quem na vizinhança quisesse ouvir. Minha tia Elidene - analfabeta em inglês - continuava a pôr a mesa, alheia à piada que, eu mesmo só foi entender anos depois.

Meu tio morreu em 99, pego pelo fígado e pela alma. Mas Ontem, enquanto eu assistia aquele documentário sobre Nina Simone no festival de Montreaux de 76 eu finalmente entendi todos os temores da minha mãe e toda a afinidade do meu tio com aquela mulher. Era como me apaixonar por uma amiga de infância.

Eu estou irremediavelmente apaixonado.

And I'm feeling good



domingo, 14 de junho de 2009

Be My Valentine

Sexta eu tirei o resto dia para ajustar pendências e comer comida chinesa. Eu que passei vários dias não queredo escrever para não me pegar em um relato pobre em profundidade sobre máquinas de lavar ou vida amorosa (Se bem que não é dificil associar uma coisa com a outra) adiei a postagem até a ultima hora.

Depois de muito tempo, foi o meu primeiro dia dos namorados sozinho. Digo, sozinho me bastando, já que o ano anterior ainda tinha um pedaço meu com alguém, o que irremediavelmente acabou com meu mês inteiro. Diante da constatação de que os meus amigos estariam ocupados celebrando as delícias do amor e das compras parceladas no cartão, eu resolvi me amar.

E o minha primeira declaração de amor foi ficar longe do telefone. Nada de Ex, nada de "estepes", nada de de comida delivery.

Antes de chegar em casa eu havia passado no supermercado e comprei um peito de frango, pimentões, algumas castanhas torradas e cozinhei um frango xadrês pra mim. E enquanto cortava o frango eu pensava em voz alta sobre as minhas escolhas de sempre guardar para mim as minhas frases mais honestas só para, antes de servir meu prato, chegar à mesma conclusão de que sou o único responsável pelas minhas aflições.

Me lembro que à uma certa altura, depois de muito pensar eu tinha tomado uma decisão de suma importância sobre o assunto.

Mas ainda tinha 8 latas de cerveja na geladeira...



segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dúzia de quatorze


Lá pela noite estávamos no Fuad e, apesar dos pesares, eu estava contente.


O pesar em questão foi aquela partidinha bizonha entre Bahia e Portuguesa - Um exercício de puro desrespeito ao desporto bretão indígno de qualquer aprofundamento - apenas citada aqui por nos ter reunido à mesa.


O cachecol tricolor não me era todo frustração, servia-me bem naquele friozinho e, bastando filar um cigarro do Meireles e um copo de cachaça -aquela que matou o guarda - minha garganta já estava ótima outra vez.

E aqueles expatriados já não mais falavam de futebol, apenas de casas, ofícios e amores. Havia uma certa nostalgia em reencontrar aqueles homens depois de anos e perceber no semblante do outro a passagem do tempo.


Não por que deixamos de ser quem éramos, apenas constatamos que nos saímos bem sendo, até certo ponto, os mesmos de sempre. Enquanto falávamos de sofá e compromisso, umas cervejas e uma dúzia de pastéis.


E depois de alguns instantes, quando a mocinha nos serviu os pastéis, já não tinha tantas aflições sobre a segunda-feira, nem mesmo sobre as questões maiores do meu coração, pois há quatorze pastéis na minha dúzia.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Everybody Hates Marcone

Sábado eu fui ver o Bahia.

Moro em São Paulo há quse dois anos e assistir um jogo do tricolor tem um significado todo especial. Não se trata de renegar minha baianidade nagô mas, quem me conhece de outros carnavais, sabe que eu nunca fui grande fã de carnaval. E talvez por essa e outras peculiaridades os paulistanos se mostram surpresos quando resolvo orgulhoso, me denunciar.

As vezes eu tenho uma nessecidade pujante, quase que primal, de passar na frente das vitrinas do Bom Retiro e fitar o meu reflexo vestindo a camisa do Bahia. Não se trata de um amalgama de recordações de infância ou devoção ao meu clube de coração. Para efeitos práticos é uma simples questão de identificar a mim mesmo diante de um todo.

Eu sou Bahia, e aqui em São Paulo, esse é meu nome do meio.

Dessa vez arrastei comigo meu amigo luso, o Francisco. Se por um lado o Chicão está mal-acostumado com as façanhas do colorado gaúcho - gosto que herdou da família brasileira da mãe (E lhes digo que não se trata de reles simpatia, é fanatismo apaixonado mesmo) - ele também acostumou-se a frustrar-se terrivelmente junto com o seu Benfica, o que tornariam as sensações da tarde familiares.

Saímos de São Paulo e de trem fomos até São Caetano do Sul, conformados em dividir a arquibancada visitante com algumas poucas almas que foram conosco da estação de trem até Anacelto no mesmo ônibus. Só para feliz da vida, me enganar redondamente. A visão me encheu de água os olhos e por pouco aquele "Bora Bahêa" quase não sai - Mas este saiu e foi ressoando entre as centenas de cabeças que se amontoávam ao redor do acanhado estádio.

Me chame de herege mas, mesmo com a conhecida fama, eu não esperava me ver tão cedo no meio da massa tricolor.

E nem os dirigentes do São Caetano, que se viram obrigados a imprimir novos ingressos às pressas pra atender àquela demanda. Minha irritação começou alí.

Entramos no estádio faltando muito pouco para o pontapé inicial. Tinhamos um estádio só pra nós pois, dando crédito aos comentários do "Guia do Brasileirão do Globo Esporte", mesmo com as promoções, faixas e cartazes pela cidade, a torcida do Azulino se resumia à alguns senhores e os molecotes das divisões de base do clube, o que serviu de gatilho pra nossas chacotas.

"Devia mudar essa organizada de nome, de 'Bengala Azul pra 'Mulheres e crianças primeiro'."

"Ão ão ão, meia-dúzia de cuzão!"

Logo no começo do jogo, um gol de falta. Aí meu amigo, baixou uma fontinovidade no ar que só vendo. Mas parou por aí. Quando sai o Dedé e entra o Marcone, começou o Deus-nos-acuda.

Marcelo nos acuda. E o nosso arqueiro fez coisas que deixou meu amigo português embasbacado e não só ele, mas qualquer desavisado que desconhecia outra proeza que não enfeitar a testa daquele ex-jogador do Vitória. Mas mesmo o paredão tricolor não poderia fazer frente à sabotágem de sua própria zaga. Tudo sempre pela nossa direita.

Quando tentei justificar a existência Marcone no nosso elenco para o Chico, tentei ser o mais eufemista possível - O Marcone é o coringa do Gallo, faz cagada em qualquer posição que colocarem ele. Mas que porra deu na cabeça desse infeliz de colocar essa baiana de acarajé em campo? Lento, pesado, indeciso e incapaz de se manter na faixa de campo na qual se presume ficar um lateral direito. O time do São Caetano reparou nisso e virada se tornou inevitável.

"Marcone ninsgraça, pra onde você tá levando essa bola? Você ataca é pra o outro lado mizéra!"

"Ô Marcone, vai pra casa jogar Fifassoqui que lá você é craque!"

"Queremos Ávine! Queremos Ávine!"

A situação de tão grotesca, acabou por desaguar em uma cena inusitada. Logo depois da expulsão do jogador do São Caetano, foi a vez do Marcone colocar um atleta azulino pra fora das linhas e fazer, imediatamente a torcida tricolor exigir, pelo amor de meu Deus, que o juíz lhe mostrasse a chapinha vermelha.

E naquela altura dos acontecimentos não sabia mais contra quem me queixar. Ora, me irritava o Marcone,ora me irratava o Gallo que colocou o Marcone, ora me irritava o Leo Medeiros que insistia em jogar com o Marcone, ora me irritavam os molecotes da base azulina...

Enfim, o filho da puta nessa história sou eu, neste frio do caralho, rouco como um cachorro velho, gritando com o sacana do Gallo pra ele ter colhões e desfazer a merda que ele fez. O time jogava tão mal que, quando saiu aquele gol no apagar das luzes, eu mesmo concordei com o juiz quando ele assinalou o impedimento.

Quando o jogo acabou, me dei por satisfeito e descemos a arquibancada em silêncio. Não um silêncio enlutado de quem acabou de perder um jogo de forma constrangedora. Apenas aquela quietude de quem, como se não houvesse outra coisa a fazer, já calcula o tempo que vai precisar para se deslocar da Vila Madalena até o Canindé.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Bastidores com Bob Dylan

Eu não sou o maior fã do Bob Dylan. E talvez por isso eu consiga ser tão incisivo.

O novo disco Together Through Life não fez meu coração ferver.

Arranjos um tanto confusos, as letras já não tem mais o frescor de antes e, exceto por "My Wife's Home Town" nenhuma das músicas conseguiu me cativar.

Mas me conhecendo bem é só questão de ouvir o disco mais algumas vezes pra mudar de opinião afinal, é Bob Dylan.




É mesmo, Porque não tocou Hurricane?!

terça-feira, 5 de maio de 2009

Moinhos & Dragões

Derrepente eu me questionava sobre uma certa tendência à aspereza.

Foi quando eu já não via mais aquele amargo dos ultimos dias e, daquele instante até agora, na minha boca há um gosto doce que não o do tabaco.

Ao abrir novamente o primeiro tomo da obra de Cervantes dentro do vagão já era outra vez gentil com o mundo e, imerso em uma arrogância boa, me convenci de que cabia a essa minha gentileza tardia prover de boaventurança tudo aquilo que eu alcançava com os olhos.

Então passei a dar trela às pequenezas que espoletavam ao meu redor até me sentir frustrado pela vida que me rouba os fones de ouvido.

Saindo do metrô comecei a tatear a bolsa da frente da mochila por um maço de cigarros e, antes de alcançar o isqueiro lá pelo segundo lance de escadas do acesso à estação, notei um par de crianças tentando abrir uma garrafinha de suco.

Torci a tampinha até o lacre romper e sem esperar qualquer aceno fui embora sem querer fumar mais nenhum cigarro naquele dia.