domingo, 30 de janeiro de 2011

Na Matinê do Cinema Olympia

O artigo abaixo foi escrito por Miriam de Sales:

O cinema mais famoso de Salvador, relembrado na música de Gil, não foi do meu tempo.

Sei que “tinha pulgas nas gerais”,muito barulho, e, era freqüentado por pessoas de classes mais baixas e de má reputação. Gente pobre, pé-rapados, sem preconceito, nem belos trajes.

Olympia era o cinema maldito. Ficava na Baixa do Sapateiro,eu alcancei o que lhe sucedeu,o Cinema Aliança, mas, nunca o freqüentei, acostumada que era, aos cinemas do Centro.

As matinês do Olympia começavam ás 12h30 ou 13h00, devido á quantidade de fitas que eram exibidas. À porta ficavam os toscos cartazes pintados á mão, anunciando o número de partes da película: o jornal, uma parte; a comedia, duas partes, curtas; depois, dois ou três filmes de cinco a seis partes e, por fim as séries de dois episódios. Tom Mix, Buck Jones, reinavam soberanos, faziam coisas indescritíveis; eram os reis do “ZÉ BRUNO”, sinônimo da mentira.

Quem sabe lá a origem da expressão? Só sei que, a cada culhuda (mentira difícil de engolir) a galera maltrapilha gritava: "Zé Bruno! Zé Bruno...!" A barulheira que vinha de dentro chegava a incomodar quem passava lá fora, era uma gritaria infernal. A especialidade da casa era filmes de faroeste e mistério; todos torciam,aos berros e pulos, pela mocinha ou pelo galã. Os velhos bem velhos que conheci recordavam as emoções sentidas nas matinês, onde Douglas Fairbanks Jr., Eddie Polo, Marie Walcamp, Harry Carey e a inesquecível “femme fatale””,Theda Bara e a ingenua Mary Pickford, além da irreverente e sensual Mae West, reinavam absolutos, sob a gritalhada da meninada em transe. Os lugares eram disputados. Os homens se aboletavam na geral - Quero a geral! - que podia ser um poleiro no último andar das varandas batizadas de frisas, camarotes, balcões e galerias, quando o cinema virava teatro, o que acontecia sempre. A geral mais barata era atrás da tela(!)onde se via tudo pelo avesso.

Contam os antigos que, o Olympia tinha sessões picnic; quem freqüentava levava sua merenda, pois as sessões eram longas. Os serventes que faziam a limpeza encontravam papéis de “queimados(balas), cascas de laranjas, melancia, espinhas de peixe frito, pedaços de pão, vômitos de crianças e pinguços, capucos de milho, tabocas de sorvete, bagaços de cana e -pasmem - espartilhos e calcinhas de senhoras, naquele tempo, chamadas calçolas.

Voltando á Gil:”sustos,emboladas,espartilhos,gatilhos...

Tempo de gente feliz.

Os cinemas da Baixa do Sapateiro,hoje,ou se transformaram em cinemas pornô,freqüentados por homens de baixa classe,mocinhos ainda não inaugurados e velhotes aposentados ou em templos da Igreja Universal.Não sei qual dos dois destinos é o pior!

Um comentário:

Anônimo disse...

Fico feliz o a atual situação do Cine Glauber. Que sirva de exemplo para o futuro Belas Artes... Oremos!