Sábado eu fui ver o Bahia.
Moro em São Paulo há quse dois anos e assistir um jogo do tricolor tem um significado todo especial. Não se trata de renegar minha baianidade nagô mas, quem me conhece de outros carnavais, sabe que eu nunca fui grande fã de carnaval. E talvez por essa e outras peculiaridades os paulistanos se mostram surpresos quando resolvo orgulhoso, me denunciar.
As vezes eu tenho uma nessecidade pujante, quase que primal, de passar na frente das vitrinas do Bom Retiro e fitar o meu reflexo vestindo a camisa do Bahia. Não se trata de um amalgama de recordações de infância ou devoção ao meu clube de coração. Para efeitos práticos é uma simples questão de identificar a mim mesmo diante de um todo.
Eu sou Bahia, e aqui em São Paulo, esse é meu nome do meio.
Dessa vez arrastei comigo meu amigo luso, o Francisco. Se por um lado o Chicão está mal-acostumado com as façanhas do colorado gaúcho - gosto que herdou da família brasileira da mãe (E lhes digo que não se trata de reles simpatia, é fanatismo apaixonado mesmo) - ele também acostumou-se a frustrar-se terrivelmente junto com o seu Benfica, o que tornariam as sensações da tarde familiares.
Saímos de São Paulo e de trem fomos até São Caetano do Sul, conformados em dividir a arquibancada visitante com algumas poucas almas que foram conosco da estação de trem até Anacelto no mesmo ônibus. Só para feliz da vida, me enganar redondamente. A visão me encheu de água os olhos e por pouco aquele "Bora Bahêa" quase não sai - Mas este saiu e foi ressoando entre as centenas de cabeças que se amontoávam ao redor do acanhado estádio.
Me chame de herege mas, mesmo com a conhecida fama, eu não esperava me ver tão cedo no meio da massa tricolor.
E nem os dirigentes do São Caetano, que se viram obrigados a imprimir novos ingressos às pressas pra atender àquela demanda. Minha irritação começou alí.
Entramos no estádio faltando muito pouco para o pontapé inicial. Tinhamos um estádio só pra nós pois, dando crédito aos comentários do "Guia do Brasileirão do Globo Esporte", mesmo com as promoções, faixas e cartazes pela cidade, a torcida do Azulino se resumia à alguns senhores e os molecotes das divisões de base do clube, o que serviu de gatilho pra nossas chacotas.
"Devia mudar essa organizada de nome, de 'Bengala Azul pra 'Mulheres e crianças primeiro'."
"Ão ão ão, meia-dúzia de cuzão!"
Logo no começo do jogo, um gol de falta. Aí meu amigo, baixou uma fontinovidade no ar que só vendo. Mas parou por aí. Quando sai o Dedé e entra o Marcone, começou o Deus-nos-acuda.
Marcelo nos acuda. E o nosso arqueiro fez coisas que deixou meu amigo português embasbacado e não só ele, mas qualquer desavisado que desconhecia outra proeza que não enfeitar a testa daquele ex-jogador do Vitória. Mas mesmo o paredão tricolor não poderia fazer frente à sabotágem de sua própria zaga. Tudo sempre pela nossa direita.
Quando tentei justificar a existência Marcone no nosso elenco para o Chico, tentei ser o mais eufemista possível - O Marcone é o coringa do Gallo, faz cagada em qualquer posição que colocarem ele. Mas que porra deu na cabeça desse infeliz de colocar essa baiana de acarajé em campo? Lento, pesado, indeciso e incapaz de se manter na faixa de campo na qual se presume ficar um lateral direito. O time do São Caetano reparou nisso e virada se tornou inevitável.
"Marcone ninsgraça, pra onde você tá levando essa bola? Você ataca é pra o outro lado mizéra!"
"Ô Marcone, vai pra casa jogar Fifassoqui que lá você é craque!"
"Queremos Ávine! Queremos Ávine!"
A situação de tão grotesca, acabou por desaguar em uma cena inusitada. Logo depois da expulsão do jogador do São Caetano, foi a vez do Marcone colocar um atleta azulino pra fora das linhas e fazer, imediatamente a torcida tricolor exigir, pelo amor de meu Deus, que o juíz lhe mostrasse a chapinha vermelha.
E naquela altura dos acontecimentos não sabia mais contra quem me queixar. Ora, me irritava o Marcone,ora me irratava o Gallo que colocou o Marcone, ora me irritava o Leo Medeiros que insistia em jogar com o Marcone, ora me irritavam os molecotes da base azulina...
Enfim, o filho da puta nessa história sou eu, neste frio do caralho, rouco como um cachorro velho, gritando com o sacana do Gallo pra ele ter colhões e desfazer a merda que ele fez. O time jogava tão mal que, quando saiu aquele gol no apagar das luzes, eu mesmo concordei com o juiz quando ele assinalou o impedimento.
Quando o jogo acabou, me dei por satisfeito e descemos a arquibancada em silêncio. Não um silêncio enlutado de quem acabou de perder um jogo de forma constrangedora. Apenas aquela quietude de quem, como se não houvesse outra coisa a fazer, já calcula o tempo que vai precisar para se deslocar da Vila Madalena até o Canindé.
Moro em São Paulo há quse dois anos e assistir um jogo do tricolor tem um significado todo especial. Não se trata de renegar minha baianidade nagô mas, quem me conhece de outros carnavais, sabe que eu nunca fui grande fã de carnaval. E talvez por essa e outras peculiaridades os paulistanos se mostram surpresos quando resolvo orgulhoso, me denunciar.
As vezes eu tenho uma nessecidade pujante, quase que primal, de passar na frente das vitrinas do Bom Retiro e fitar o meu reflexo vestindo a camisa do Bahia. Não se trata de um amalgama de recordações de infância ou devoção ao meu clube de coração. Para efeitos práticos é uma simples questão de identificar a mim mesmo diante de um todo.
Eu sou Bahia, e aqui em São Paulo, esse é meu nome do meio.
Dessa vez arrastei comigo meu amigo luso, o Francisco. Se por um lado o Chicão está mal-acostumado com as façanhas do colorado gaúcho - gosto que herdou da família brasileira da mãe (E lhes digo que não se trata de reles simpatia, é fanatismo apaixonado mesmo) - ele também acostumou-se a frustrar-se terrivelmente junto com o seu Benfica, o que tornariam as sensações da tarde familiares.
Saímos de São Paulo e de trem fomos até São Caetano do Sul, conformados em dividir a arquibancada visitante com algumas poucas almas que foram conosco da estação de trem até Anacelto no mesmo ônibus. Só para feliz da vida, me enganar redondamente. A visão me encheu de água os olhos e por pouco aquele "Bora Bahêa" quase não sai - Mas este saiu e foi ressoando entre as centenas de cabeças que se amontoávam ao redor do acanhado estádio.
Me chame de herege mas, mesmo com a conhecida fama, eu não esperava me ver tão cedo no meio da massa tricolor.
E nem os dirigentes do São Caetano, que se viram obrigados a imprimir novos ingressos às pressas pra atender àquela demanda. Minha irritação começou alí.
Entramos no estádio faltando muito pouco para o pontapé inicial. Tinhamos um estádio só pra nós pois, dando crédito aos comentários do "Guia do Brasileirão do Globo Esporte", mesmo com as promoções, faixas e cartazes pela cidade, a torcida do Azulino se resumia à alguns senhores e os molecotes das divisões de base do clube, o que serviu de gatilho pra nossas chacotas.
"Devia mudar essa organizada de nome, de 'Bengala Azul pra 'Mulheres e crianças primeiro'."
"Ão ão ão, meia-dúzia de cuzão!"
Logo no começo do jogo, um gol de falta. Aí meu amigo, baixou uma fontinovidade no ar que só vendo. Mas parou por aí. Quando sai o Dedé e entra o Marcone, começou o Deus-nos-acuda.
Marcelo nos acuda. E o nosso arqueiro fez coisas que deixou meu amigo português embasbacado e não só ele, mas qualquer desavisado que desconhecia outra proeza que não enfeitar a testa daquele ex-jogador do Vitória. Mas mesmo o paredão tricolor não poderia fazer frente à sabotágem de sua própria zaga. Tudo sempre pela nossa direita.
Quando tentei justificar a existência Marcone no nosso elenco para o Chico, tentei ser o mais eufemista possível - O Marcone é o coringa do Gallo, faz cagada em qualquer posição que colocarem ele. Mas que porra deu na cabeça desse infeliz de colocar essa baiana de acarajé em campo? Lento, pesado, indeciso e incapaz de se manter na faixa de campo na qual se presume ficar um lateral direito. O time do São Caetano reparou nisso e virada se tornou inevitável.
"Marcone ninsgraça, pra onde você tá levando essa bola? Você ataca é pra o outro lado mizéra!"
"Ô Marcone, vai pra casa jogar Fifassoqui que lá você é craque!"
"Queremos Ávine! Queremos Ávine!"
A situação de tão grotesca, acabou por desaguar em uma cena inusitada. Logo depois da expulsão do jogador do São Caetano, foi a vez do Marcone colocar um atleta azulino pra fora das linhas e fazer, imediatamente a torcida tricolor exigir, pelo amor de meu Deus, que o juíz lhe mostrasse a chapinha vermelha.
E naquela altura dos acontecimentos não sabia mais contra quem me queixar. Ora, me irritava o Marcone,ora me irratava o Gallo que colocou o Marcone, ora me irritava o Leo Medeiros que insistia em jogar com o Marcone, ora me irritavam os molecotes da base azulina...
Enfim, o filho da puta nessa história sou eu, neste frio do caralho, rouco como um cachorro velho, gritando com o sacana do Gallo pra ele ter colhões e desfazer a merda que ele fez. O time jogava tão mal que, quando saiu aquele gol no apagar das luzes, eu mesmo concordei com o juiz quando ele assinalou o impedimento.
Quando o jogo acabou, me dei por satisfeito e descemos a arquibancada em silêncio. Não um silêncio enlutado de quem acabou de perder um jogo de forma constrangedora. Apenas aquela quietude de quem, como se não houvesse outra coisa a fazer, já calcula o tempo que vai precisar para se deslocar da Vila Madalena até o Canindé.
3 comentários:
Muito bom!!! Digno de publicação no Baheaminhaporra! Faltou aquele "trocadalho" que você mandou no blog tricolor, do cone... hehehe
Mandei uma foto para seu e-mail. Se der coloca no seu post!
E que venha a Lusa...
Post tão memorável como a experiência tragicómica de sábado! hehehe
No Canindé, lá estaremos novamente. Esperemos só que com desfecho mais animador!
Alguem sabe onde arranjar chepéus de padeiro? Devemos ir a caráter no próximo jogo... hehehe
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