quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Parem os Projetores

"...Da força da grana que ergue e destroi coisas belas..." - Caetano Veloso



Meu nome é Fabrício Lima, nasci em Salvador mas meu título de eleitor como tudo mais em minha vida, agora é de São Paulo.

Quando cheguei aqui há três anos, coincidiu que minha primeira sexta-feira era dia de “Noitão” no Belas Artes. Ainda não tinha amigos cinéfilos, ainda não estava trabalhando e faltavam duas semanas para as aulas no Senac começarem. Pra falar a verdade não faziam quarenta minutos que eu havia acabado de descer em Congonhas. Comprei a entrada e minha primeira madrugada na polis foi acordado vendo Tim Burton e Lucía Puenzo.

E enquanto eu conhecia a cidade vieram outras sextas-feiras, com Dominique Abel, Rene Letzgus e Fernando Meirelles. Eles vinham aos pares, aos trios, aos montes. Delicados, deliciosos, repetitivos, infames, iluminados e insones. Uma vez por mês, um ménage a trois em uma sala repleta de voyeurs - porque, sozinho ou acompanhado, eramos só eu e eles – e o Belas, a velha cafetina.

Não foi esta manhã que fiquei a saber que o Belas cerraria as portas. Desde que o HSBC retirou seu patrocínio ao cinema e o prazo começou a correr sabia que era questão de tempo. O que me deixa puto é me perguntar repetidas vezes o que a administração pública (seja o estado ou o município) fez por aquela casa, com sessenta e oito anos de serviços prestados à cultura dessa cidade, pra evitar que ela se transforme em mais um maldito prédio de estacionamentos.

Kassab - por exemplo - quer tirar os artistas das ruas, os cinemas do centro, tombar as velhas casas da Brigadeiro Luís Antônio, encher as vias de carros e motos, mandar-nos todos a puta-que-pariu ou à Barueri e que se foda todo o resto. Fechem os bares da Augusta após a meia-noite, arranquem os letreiros suspensos da Liberdade, apaguem os grafites do Minhocão virem as bancas da Paulista de lado, higienizem, homogenizem, padronizem asfaltem!

Senhores, por favor. Foi-se o tempo em que se contabilizava votos por quilômetro de asfalto plantado. Isso deve ter sido aceitável nos anos setenta quando a seleção ainda tinha Pelé, Gerson, Jairzinho e Tostão.

Então deixem-me com meu cinema porque, ver futebol hoje em dia, é uma grande bosta.

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