(Versão acústica, que permite um maior foco na letra. O original tá no iPad aí do lado!)
Letra
Mensageiro e mensagem: Desta feita não proveniente do Canadá, mas ainda assim tendo o país presente no nome, of Montreal é sinónimo de Kevin Barnes. Excêntrico, camaleónico e altamente prolífico, características que por si só embora não definidoras são, concordemos, bastante benéficas à composição de um génio musical. Barnes é tanto a personificação da banda como a sua força criativa exclusiva, no que na verdade trata-se praticamente de um projeto a solo. Do seu quarto para o mundo tem-nos agraciado, a um ritmo alucinante, tanto com encantadoras composições lo-fi retro de inspiração Beatle-Beach Boy-Kinksiana nos primeiros anos de carreira como com esquizofrénicas composições funkadelic indie pop glam atuais. Em comum, sempre, as exuberâncias sonoras, a torrente compulsiva de melodias, a sensibilidade e instigância no uso das palavras, formando aquilo a que alguém de forma perfeita classificou de "ADD (attention deficit disorder) music".
Cenário: Numa abrasiva solidão noturna de inverno povoada apenas por fantasmas insónicos num limbo entre o mundo onírico e o real
Porque importa: É uma expressão incrivelmente precisa da complexidade e contradição de um relacionamento em desintegração. A primeira parte do álbum "Hissing Fauna, Are You The Destoyer?" (2007) é um relato da depressão profunda e da crise do casamento de Kevin Barnes com sua esposa Nina Aimee Grøttland enquanto viviam na Noruega na sequência do nascimento da filha. "The Past Is A Grotesque Animal" foi criada precisamente após a separação temporária dos dois e é o o núcleo do próprio disco, o marco central dessa viagem interior, um vislumbre perturbante e desarmante ao seu mais profundo âmago. Num padrão aparentemente simples e repetitivo, impulsionada por uma batida pulsante sombriamente pontuada por guitarras e sintetizadores, a canção avassaladoramente progride em tensão através das confissões em verso livre de Barnes. Quando o contador atinge a marca de 11:52 e a canção chega ao fim, resta-nos apenas tentar absorver tudo o que acabou de nos ser violentamente arremessado. E fica uma certeza: estamos perante uma obra-prima.
Killer line(s): Todas? Certa vez alguém comentou que esta é provavelmente a letra mais citável jamais criada. Pode até ser excesssivo, mas não muito. Sua construção é brilhante! Assim sendo é tarefa impossível escolher apenas uma, pelo que ficam aqui algumas das mais incisivas:
"The past is a grotesque animal and in its eyes you see how completely wrong you can be"
"It's so embarrassing to need someone like I do you. How can I explain I need you here and not here too?"
"At least I author my own disaster"
"Things could be different but they're not"
"Our love project has so much potential, but it's like we weren't made for this world. Though I wouldn't really want to meet someone who was"
"Somehow you've red-rovered the gestapo circling my heart"
"I find myself searching for old selves while speeding forward through the plate glass of maturing cells"
"Sometimes I wonder if you're mythologizing me like I do you. We want our film to be beautiful, not realistic"
"I've explored you with the detachment of an analyst, but most nights we've raided the same kingdoms. And none of our secrets are physical now"
Outros disseram: "A gnawing, snarling beast of a song that eventually eviscerates all its own pop sensibility and eats itself. Both a pledge of devotion and distance ("How can I explain?/I need you here and not here too"), the song writhes and twists around a series of increasingly bleak philosophical musings and eventually culminates in a series of sarcastic “woo-oo”s and Barnes muttering the lines “Let’s just have some fun. Let’s tear this shit apart. Let’s tear the fucking house apart.” There is a dissonance there between the words that Barnes is saying and what he means, and that dissonance shimmers down through the trashcan beats and the pulsing of the blacklight. The drum machine may be popping but Barnes is just shuffling around in his chains" - M. Sartini Garner
Meta-discurso: "It's very autobiographical, it's basically like a letter to my wife. We split up for a while. It's all about our relationship and what it was like at that period in my life. All these life-changing events were going on. I'd gotten married, and we were expecting our first child, and we were living in Norway, and I didn't know how to deal with those things, because as an artist you live in your own fantasy world. So when reality hits, it hits hard. It was hard to adapt. I had a very difficult time with things. I went through a chemical depression I couldn't get out of. It affected me on all levels. I was mainly making music on my laptop as therapy, to lift me out of this horrible darkness, because I was going crazy" - Kevin Barnes
3 comentários:
tudo o que foi relatado se encaixa quando a canção termina e o silêncio engole, sem misericórdia, aqueles minutos de pura - e bela - melancolia. Feliz por não ter uma arma ao meu lado...
acho que o próximo desse devia ser uma música dos smiths
Foi só eu ou alguém mais se sentiu inquieto?
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