domingo, 26 de julho de 2009
FMI - Panegírico, pro-lírico daqui
(letra)
Há obras que nos tocam, que nos marcam. É recorrente e natural. Criações com a ímpar capacidade de comunicarem directamente à nossa alma e se adentrarem profundamente em nós.
A música de que vou falar a seguir é para mim uma dessas obras. Ainda me recordo do dia em que a ouvi pela primeira vez... Há sensivelmente cinco anos atrás. Estava numa fase de descoberta da discografia de José Mário Branco, uma das grandes figuras artísticas portuguesas da segunda metade do século XX.
Primeiro, vi o título: "FMI". Aguçou-me imediatamente o interesse e não pude evitar esboçar um sorriso, antevendo a irónica e mordaz desconstrução que aí viria. Uma dessas paródias político-sociais tão acutilantes, bem características do Zé. Mal sabia o que me aguardava!
Pois bem, coloquei então o disco para tocar.
Escutei...
Vinte minutos passaram...
O CD parou de rodar.
Eu, num estado de completa perplexidade... Perfeitamente avassalado, tentando absorver a torrente que acabara de me atingir. Passara por todos os espectros das emoções humanas ao longo daquele tempo. Da mais genuína hilaridade à mais pungente das melancolias.
De FMI, composta em 1979 (5 anos após o 25 de Abril), se diz muitas vezes ser "a obra síntese do movimento revolucionário português, com seus sonhos e desencantos". É isso, sem dúvida, mas é muito mais.
É a expressão mais verdadeiramente precisa:
Do mundo atual, em geral: "Entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá!"
De ser português, em particular: "Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né?"
Do mais globalmente político: "É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti. (...) E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada."
Ao mais reconditamente íntimo: "Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo".
Do ser humano na sua plenitude.
Há obras que nos tocam, que nos marcam. E há outras que logram ir ainda mais além. Que têm o raro condão de nelas conterem o âmago do artista entalhado e projetado para a essência coletiva da nossa existência. Que passam a nos pertencer a todos. Como FMI.
"Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez."
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2 comentários:
Ácido e saboroso como uma limonada suíça. Me faz lembrar dos cravos de Portugal, das azaléias do Vale do Canela e da única bala de borracha da minha vida, de gaiato.
Queria que alguma obra me tocasse assim. Tenho referências e ídolos, mas nada como você colocou...
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