* Ou o desfecho da trilogia
O dia havia começado cedo pra mim. Ou melhor, semi-começado.
Apontava o relógio poucos minutos depois das seis da manhã quando acordei, sem nenhum motivo ou necessidade, tendo estado em companhia de Morfeo por apenas umas três horas. "Fantástico", pensei para comigo. Num domingo de manhã, de todos os dias.. "Muito obrigado, organismo desequilibrado!"
Ainda insisti e tentei retornar ao outro lado, mas foi em vão. Estava agitado e não tinha como... Rendi-me então e aproveitei o crepúsculo para me submergir na leitura e na música.
Bem sei que não é das companhias mais animadas para um começo de domingo, mas o "Blood On The Tracks" serviu naquele momento como bálsamo catártico de que precisava. "Então era isso que querias, maldito? Uma dose de Dylan? Ok, ok... Tudo bem, é compreensível, não te censuro". Então, após o Bob me falar diretamente por maravilhosos 51 minutos e 42 segundos, pude finalmente adormecer outra vez.
Quando acordei novamente, passando das 11 horas, minha primeira reação foi achar que tinha sido teletransportado para o Deserto do Saara! "Ou então morri e estou sendo contemplado com todo o quente esplendor dos infernos!"... Pós-imediatamente, apercebendo-me que nenhum dos cenários era real, apenas o insano clima paulistano pregando das suas, assaltou-me uma necessidade incontrolável de beber algo bem gelado e de comer alguma iguaria fora dos meus hábitos alimentícios regulares.
Lembrei-me então que fazia já um tempo que a congregação alfacinha-soteropolitana falava de retornar à Rota do Acarajé, casa de comida baiana aqui nos nossos redutos da Santa Cecília. Pois nem por acaso: entro no Twitter e vejo o que o Paulo Márcio acaba de anunciar: "Parece que está rolando uma vontade coletiva da comunidade nagô de comer um acarajé paulistano... #meda" Total transmissão coletiva de pensamento!
Rapidamente me preparo, saio de casa e quando dou por mim estamos já reunidos diante da Rota. Pegamos logo uma gelada, cujo primeiro gole tem em si todo o deleite existencial que só a fiel amiga etílica pode proporcionar. O resto fica por conta mesmo da presença dos companheiros expatriados e da cumplicidade daí advinda.
Desprovido dos receios por eles cultivado face ao facsimile paulista de acarajé, me entretive a compreensivamente presenciar a sua angústia ao se debaterem com o apelo saudoso da comida da terra natal. Sei bem como é! Quantas vezes já não fui assaltado por desejos de um delicioso pastel de Belém acabado de sair do forno, só para me confrontar com os ignóbeis folhadinhos de baunilha que criminosamente por aqui ostentam seu nome? Não é fácil, gente!
Mas no fim, venceu mesmo a imbatível combinação gula+saudade. Já com o Gabriel presente, todos empunhando garfo e faca, tratamos de devorar os nossos acarajés. Para mim, comer caruru tem toda uma significância especial, extra-culinária, pois transporta-me diretamente à minha infância, em São Tomé e Príncipe, onde condecorei o prato com o grandioso epíteto de "manjar dos deuses".
Assim foi fluindo a tarde, entre dendê, pimenta, cerveja e conversação descontraleatoriamente divertida. No final, tive que abandonar os restantes companheiros mais cedo, mas por uma "causa justa", como com toda a precisão colocou o Fabrício.
E o domingo terminaria escoando para uma noite preciosamente leve.
5 comentários:
O melhor, na minha humilde opinião. Para variar... =)
Um grand finale, sem dúvida. Para a trilogia e para a tarde!
Adorei! Adorei! Adorei!
Não só por ter descoberto que continuas a escrever tão bem como sempre.
Mas por todos os deliciosos detalhes: o pastel de Belém, o carurú de São Tomé e estas fomes vorazes e nostágicas dos expatriados (ou cidadãos do mundo?)!Quem me dera agora um churrasco com carne dos pampas...
Ou então voltar à Rota e comer aquele acarajé (mesmo apaulistado) e um escondidinho de mandioca.
Santa Cecília é um mundo!
Ah! Adorei os teus amigos e os seus testemunhos! Blog "bué de fixe" !
"Apontava o relógio poucos minutos depois das seis da manhã quando acordei, sem nenhum motivo ou necessidade, tendo estado em companhia de Morfeo por apenas umas três horas."
adorei a menção a morfeo!
;-)
Na moral, dias assim deveriam não ter fim.
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